Cartão de crédito: quando a corrida por milhas se torna uma armadilha

Escrito por: - Publicado em: 18/08/2021

“Eu gosto de pagar tudo no cartão, porque ganho milhas.” Você já ouviu isso de alguém?

 

Antes de iniciar, gostaria de esclarecer que a intenção aqui não é dizer o que é certo ou errado, mas provocar uma reflexão em relação a essa afirmação. Cada pessoa tem o seu próprio universo e o cartão realmente traz algumas facilidades, mas entender até onde vão essas vantagens é fundamental para não cair em cilada.

 

Muitos aceitam pagar um valor alto de anuidade, apenas para conseguir o cartão X ou Y, que promete ser a melhor coisa da vida. Oferecem pontuação maior, acesso a salas especiais, seguros, internet para viagens, entre outras coisas. O problema aqui é que, em boa parte das vezes, essa anuidade acaba sendo maior que os benefícios ou não conseguimos aproveita-los totalmente. Ou pior ainda, alguns nunca sequer pararam para fazer essa conta e refletir se o valor gasto está realmente compensando. 

 

Para compreender melhor a relação que temos com o cartão de crédito, é preciso entender a “pain of payment”, ou a dor do pagamento. Esse fenômeno identifica o desconforto que sentimos quando gastamos dinheiro e vem sendo tema de vários estudos, que têm como proposta investigar como ele ocorre no dia a dia em diferentes contextos.

 

Esses estudos mostram que quando o pagamento é mais evidente e instantâneo, a dor sentida é maior e por consequência, somos levados a ponderar mais nossos gastos, tendendo a tomar melhores decisões. Ou seja, quando o desembolso é mais bem percebido, sofremos mais. Isso quer dizer, na prática, que o cartão de crédito mascara essa dor, fazendo com que a nossa avaliação em relação aos gastos seja prejudicada. 

 

Topa fazer um teste? Se Imagine saindo para jantar em um restaurante mais requintado, e ao final, pagar em dinheiro ao invés de cartão de crédito. Ou comprar algum produto, como um sapato, um terno ou um relógio e ao pagar, entregar dinheiro em espécie, nota por nota, ao vendedor. Certamente irá repensar sobre a real necessidade de comprar tais coisas, ou refletir mais sobre suas escolhas no restaurante. Talvez peça apenas uma garrafa de vinho ou, quem sabe, só uma taça, rs.

 

Essa é uma ótima forma de retomar aquela avaliação que era possível fazer antes das formas digitais de pagamento. Os mesmos estudos mostram que é muito mais fácil administrar uma quantia em espécie de dinheiro do que um cartão de crédito com um limite 5 vezes maior do que ganhamos mensalmente. Isso porque eles são intencionalmente projetados para isso. Trazer conforto na hora da compra, tornando-a mais fácil e prazerosa. Não é a toa que existam tantos incentivos para que possamos gastar cada vez mais.

 

A sugestão não é abandonar o cartão e começar a pagar tudo em dinheiro para sempre, mas conseguir despertar esse olhar mais atento sobre nossos gastos. Afinal, em um futuro não tão distante, as cédulas em papel acabarão sumindo, quem sabe até em sua totalidade, sucumbidas pelas tecnologias de pagamento. Porém, ficarmos rendidos, sem entender que podemos cair em uma armadilha, caso continuemos apenas respondendo a estímulos, é bastante perigoso do ponto de vista financeiro. 

 

Talvez você me responda: Ah, mas eu já gastaria esse valor de qualquer maneira, por que não ganhar algumas milhas? É possível que sim, mas vale tirar a prova. Experimente ir ao shopping com um valor pré-definido para as compras que vai fazer e em algum outro dia, leve o cartão de crédito. Faça a comparação. Arrisco dizer que gastará mais no dia que levar o cartão. Tendemos a ser mais permissivos com esses gastos, justamente por não sentir a dor da perda, do dinheiro indo embora e a falta dele na carteira. 

 

Mas até que ponto isso realmente é bom para nós? Será que esse tipo de comportamento serve para todos? Será que esses gastos a mais não estão prejudicando a realização dos nossos projetos por incharem demais o orçamento? 

 

Lembre-se que a vida é feita de escolhas, quem dá o peso para o que é mais importante ou menos importante, somos nós. Entender como esse sistema funciona é o primeiro passo para não sermos enganados por ele.

 

Por Renan Lima | Graduado em Economia, Especialista em Economia Comportamental pela ESPM e Planejador Financeiro CFP®. Atuou no Financial Times Group – Merger Market, em Londres, Inglaterra e Trainee nas Lojas Riachuelo S.A.. Foi membro do Instituto Líderes do Amanhã, Cindes Jovem, Laboratório Estudar, programa de formação de lideranças da Fundação Estudar e Professor na Fucape Business School, entre as 10 melhores faculdades do país. Atualmente, é Embaixador e membro da Comissão de Advocacy da Planejar (Associação Brasileira de Planejadores Financeiros) e Sócio fundador da Meu Patrimônio.

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