Organizze entrevista: Gustavo Cerbasi

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Como ter o controle total do seu dinheiro na visão de Gustavo Cerbasi

Que administrar o próprio dinheiro, ou os recursos da empresa, é essencial para economizar, todo mundo sabe. O que não fica tão claro assim é o meio para se conseguir chegar lá. E o que surpreende é que se trata, apenas, de uma questão de organização.
Quem garante não somos só nós, da Organizze, mas sim o maior consultor financeiro do Brasil, Gustavo Cerbasi.
Em pouco mais de uma hora, Cerbasi falou de forma clara, simples e objetiva sobre planejamento para alcançar os sonhos e sobre cautela para alcançar gradativamente o sucesso financeiro, tanto pessoal quanto empresarial.
Aquisição da casa própria, educação financeira com os filhos, carreira e vários outros temas foram abordados pelo especialista em finanças que começou a trabalhar aos 20 anos e já vendeu mais de 150 milhões de livros em todo o mundo.

Organizze – Aos 20 anos você começou a dar aulas de inglês. Desde este momento você começou a economizar para o seu primeiro milhão? Já existia esta consciência sobre finanças nesta época?
Gustavo CerbasiNão. Na verdade, eu tinha uma certa disciplina. Professor de inglês não ganha tão bem assim e do pouco que eu guardava, eu fazia passeios de fim de semana, programas com a minha namorada etc. A ideia do primeiro milhão surgiu de um insight numa aula de matemática na Faculdade Fundação Getúlio Vargas, em que um professor de educação financeira usava exemplos do tipo “imagine se você, ganhando mil ou mil e quinhentos reais por mês, poupar metade do que ganha”. O nome dele é professor Nivaldo Pilão, nunca mais vou esquecer. Foi ele que me deu este insight de fazer contas e rascunhar onde eu chegaria com este esforço. Foi realmente algum tempo depois, quando eu passei a ganhar uma renda maior, que aquilo se tornou praxe, provavelmente a partir dos 24 ou 25 anos.

Organizze – Você já escreveu diversos livros sobre educação financeira, voltados aos mais diferentes públicos. Afinal, qual a importância do controle financeiro na vida das pessoas?
Gustavo CerbasiA importância do controle, não só financeiro, é total, porque, quando você fala de qualidade de vida, você tem que ter algum controle sobre aquilo que representa qualidade para você. Se eu tenho um controle alimentar, não é restrição alimentar, é consciência alimentar. Se eu comi muito no fim de semana, eu vou ter um meio de semana mais magrinho. Se eu gastei demais nas férias, num passeio ou num presente, eu tenho que ter a consciência de que eu vou ter que mudar alguma coisa nas semanas seguintes. Então o controle, é como aquele controle de médico que nós fazemos. Num exame de sangue, por exemplo, mesmo um leigo quando pega um hemograma ele lê sobre o colesterol, açúcares e todos os indicadores daquele hemograma que vão dizer se a pessoa está ou não fora dos limites. Se eu tenho um bom controle dos meus gastos, eu vou saber se as metas que eu organizei serão viáveis ou não, e vou ter condições de ajustar isto. O problema é que, quem não faz esta leitura acaba se iludindo e quando vê o problema já ficou grande demais para corrigir.

Organizze – Você tem três filhos. Você já conversa sobre finanças com eles? Existe algum momento ideal para falar sobre finanças com os filhos?
Gustavo CerbasiEu procuro conduzir com muita tranquilidade. Quando eu escrevi o meu primeiro livro sobre finanças para crianças, que é o “Filhos Inteligentes Enriquecem Sozinhos” – e hoje chama-se “Pais Inteligentes Enriquecem seus Filhos” – eu fui orientado por alguns especialistas que educação financeira para crianças começa no ventre. Dentro da mãe, quando a criança cresce num ventre que tem disciplina para a hora do banho, pra hora da alimentação, com um sono tranquilo… Essa criança já vai ter um certo sentimento de conforto com a rotina.
O que eu procuro fazer em casa é uma rotina mais ou menos disciplinada, em que as crianças entendem que não se compram presentes em nenhuma hipótese se não há motivo pra comprar presente: se não é uma data festiva, se não é uma celebração, se não houve uma conquista. Então nós vamos ao shopping e as crianças estudam as vitrines para ver o que vão pedir quando houver um motivo.
Meus filhos sempre perguntam por que eu viajo tanto, por que eu trabalho tanto. E tem sempre uma reflexão, que nós trabalhamos para continuar melhorando nossa vida e poder continuar viajando, comprando coisas que as crianças gostam também. Esta conversa é muito franca, muito transparente, mas sem exageros no sentido de ficar detalhando cuidadosamente a mesada, por exemplo, porque meus filhos são pequenos. Vai chegar uma segunda fase em que isto passa a ser mais importante.

Organizze – Comprar e adquirir coisas está bem mais fácil do que há 30 anos. Temos mais opções de produto e também de crédito. Isto contribui para comprometer as finanças? Deveria ser um facilitador para as finanças pessoais, não é?
Gustavo CerbasiÉ como você falar que os carros hoje são mais velozes e o público não aprendeu a dirigir. Basicamente está se dando ao público uma condição de consumo mais complexa – complexa no sentido de que, quem comprou um carro vai ter que lidar com impostos, vai ter que lidar com decisões de consumo diferentes daquela que anda de ônibus. Então a pessoa que se depara com o consumo mas nunca teve, nem na escola, nem na sua família a orientação de como usar, vai num segundo momento cair numa situação de muito desconforto por lidar com uma despesa que não estava nos planos. E não é aquela despesa esquecida. Não estou falando do IPVA, do combustível, do seguro do carro. A pessoa que compra um carro, por exemplo, às vezes esquece que quem andava de ônibus ia de casa pro trabalho e quem tem carro vai de casa pro trabalho e, no fim de semana, quer visitar amigos, quer viajar. Este gasto dos passeios não estava nos planos.
Quem compra uma TV nova esquece que a boa televisão funciona com um pacote de TV a cabo e este pacote de TV a cabo não estava nos planos, apenas a prestação da televisão.
O que está acontecendo com a sociedade brasileira hoje é que muita gente está tendo o primeiro contato com o consumo que seus pais, seus avós não tiveram. Então não há uma orientação sobre cuidado com a consequência disso. Por isso a facilidade do crédito está criando um transtorno muito grande nas famílias e as famílias não estão preparadas para lidar com esta facilidade.

Organizze – Você já disse que se deve buscar o que se gosta, na carreira, para não se frustrar pessoalmente a longo prazo. Mas, o baixo retorno financeiro de uma carreira pouco rentável não irá trazer uma frustração pessoal da mesma forma?
Gustavo CerbasiTodo jovem precisa entender que mesmo a mais apaixonante das carreiras e a mais rentável vai dar um certo pedágio a pagar no começo, que é aquela fase em que o mais jovem e menos experiente fará o trabalho que o mais experiente, que ama o que faz, não quer fazer.
Outro ponto importante é: não importa o que eu faça da minha vida, se eu vou ser músico, se eu vou ser artista, se eu vou ser esportista, eu tenho que ter a consciência de que, como os bem-sucedidos na minha profissão fazem resultado, fazem dinheiro com isto. Normalmente quem faz o que gosta tem que fazer de corpo e alma para não ter que correr atrás de outras coisas que tragam resultado.
O profissional apaixonado, o músico, por exemplo, tem que passar o dia trabalhando numa outra atividade e não vai ter tempo de treinar; nunca será um músico bem remunerado. A mesma coisa acontece com o professor, a mesma coisa acontece com aquela pessoa que tem um trabalho mais altruísta.
Agora, se esta pessoa se dedica, estuda, cria um blog, torna-se referência no seu assunto, mesmo a menos remunerada das profissões será recompensadora a médio e longo prazo para esta pessoa que fez uma carreira na sua profissão. O que não pode ser feito jamais é acomodação, de a pessoa no início da carreira esperar as coisas acontecerem. Nós temos que correr atrás.
A pessoa pode ser orientada pela família a seguir, por exemplo, uma carreira pública, porque é muito mais previsível. Ótimo! É uma ótima solução para aposentadoria. Mas mesmo na carreira pública, é um grande desperdício a pessoa entrar e não perceber que existem etapas a serem alcançadas, se ela estudar, se ela se aprimorar e buscar outros concursos, buscar um cargo de confiança. Então, não importa se busca-se conforto, ou simplicidade financeira, não importa se a ideia é buscar segurança. Todas as carreiras exigem um certo trabalho para você crescer e colher resultados.

Organizze – Alguns leitores nossos nos enviaram perguntas sobre finanças para você responder: O Lucas Leite, de Curitiba, perguntou sobre a aquisição do carro novo: o carro zero será sempre a melhor opção de compra, com o melhor custo-benefício, ou dependendo do meu momento financeiro é mais aconselhável optar por um carro seminovo?
Gustavo CerbasiLucas, o seminovo sempre vai ser a melhor solução em termos matemáticos, termos financeiros. Faça as contas e você vai ver que um carro que saiu da concessionária há alguns meses, que a pessoa desistiu da compra, ou se for um carro bem cuidado, que não teve nenhum problema, bem avaliado por um mecânico, ele sempre vai ser a melhor condição financeira de compra. Agora, se a pessoa tem uma paixão por carro, tem uma paixão pela novidade, pelo design, e valoriza isso, a compra do carro novo tem um aspecto de luxo que quem pode pagar vai ter, num carro zero quilômetro, um conforto a mais. Então eu diria que a pessoa tem que se preparar pra comprar o seminovo. Se não houver imprevistos no meio do caminho, se não houver nenhum tipo de surpresa e a pessoa tem a preferência pelo novo, não é nenhum grande problema comprar o novo, desde que a pessoa aproveite bem este novo. Um erro comum dos brasileiros é a pessoa comprar um carro que dura cinco anos e vender este carro com dois ou três anos de uso, sendo que poderia aproveitar este carro melhor. Principalmente pra quem vai descartar o carro em pouco tempo, o seminovo é mais vantajoso.

Organizze – A Maria do Carmo, de Belo Horizonte, quer saber sobre negócios: para quem tem pouco capital inicial, abrir uma empresa em sociedade é o melhor negócio, para auxiliar nas contas? Quais opções eu teria neste caso?
Gustavo CerbasiMaria do Carmo, quem tem sócio tem patrão. Um sócio sempre é uma pessoa pra questionar suas decisões, questionar suas estratégias. Então é sempre uma dificuldade a mais. O quanto você puder evitar esta união de forças para dividir responsabilidades, e dividir os lucros também, melhor. Agora, quem não tem capital tem algumas soluções. Uma delas é montar um bom plano de negócios. Cursos do Sebrae ajudam a fazer isto. Eu não preciso fazer um curso mais específico, uma faculdade pra isso. Mas, se tem um bom projeto a apresentar, eu tenho argumentos para um banco, por exemplo, trazer mais recursos pro meu capital, um bom investidor específico colocar um dinheiro no meu negócio. Pode ser até um sócio capitalista que não interfira nas decisões da empresa. Alguém que traga o capital e eu remunero este capital melhor do que a poupança, por exemplo.
Se eu souber ter argumentos pra convencer alguém de que meu negócio é bom, eu vou conseguir dinheiro. O que falta no Brasil é isto. Não falta empreendedorismo, não falta boa ideia, não faltam bons negócios. Faltam bons argumentos para que os empreendedores consigam um bom dinheiro que está disponível e não encontra ninguém sério o suficiente pra receber este dinheiro. Não que você não seja séria, Maria do Carmo, mas eu tenho que provar que eu sou tão bom quanto eu sei que realmente sou.

Organizze – O Mateus Andrade, de Teresópolis, quer saber: mesmo com as opções de financiamento, adquirir a casa própria ainda é inviável para mim. Morar de aluguel é perder dinheiro em qualquer hipótese? É melhor eu fazer empréstimos para comprar a casa própria, ou devo ficar no aluguel a vida inteira?
Gustavo CerbasiMateus, esqueça a casa própria enquanto você não tiver plenas condições de comprar. Na verdade, existe uma pressão muito grande da família, da sociedade, dos amigos para que a gente tenha o quanto antes a casa própria, que significa segurança, estabilidade e não é. Você tem uma grande dívida a pagar em 20, 30 anos é um grande problema para a sua carreira. Pensa no seguinte: o Mateus disse que tem a consciência que ele ganha pouco e que tem poucas reservas. Ou seja, o Mateus não está satisfeito com a vida dele, ele quer crescimento. Nada pior para o seu crescimento do que engessar suas escolhas. E a casa própria nos engessa financeiramente, com uma prestação pesada a pagar, que eu não posso me livrar. As pessoas ficam com medo de mudar de emprego, de tentar crescer na vida, porque, se não der certo o novo emprego, eu não consigo pagar minhas dívidas, e aí a pessoa tende a se estagnar na carreira.
E tem o engessamento geográfico também. A casa própria te coloca numa situação física que o emprego bom está sempre próximo da residência. Você mata 99,99% do mercado de trabalho! Então, não pense na casa própria enquanto você não tiver um ótimo saldo no fundo de garantia; enquanto você não tiver uma boa renda que permita pagar este financiamento da casa talvez em 10, 12 anos, um prazo não muito longo, porque quanto mais tempo você ficar devendo mais a dívida consome o seu rendimento. O ideal é trabalhar alguns anos, fazer a renda crescer, dar-se a oportunidade de sair de Teresópolis, de circular o mundo, de conhecer, ter experiências, e vai chegar este momento na sua vida.

Vida
Gustavo Cerbasi é Mestre em Administração/ Finanças pela FEA/ USP, formado em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com especialização em Finanças pela Stern School of Business – New York University e pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Leciona em cursos de pós-graduação e MBAs pela Fundação Instituto de Administração, além de diversos cursos ministrados in company.
Foi eleito o Melhor Educador Financeiro do Brasil em 2012 pela Arata Academy, também conquistando o segundo lugar na categoria Melhor Livro Brasileiro de 2012 com “Os Segredos dos Casais Inteligentes”. Em 2009, foi eleito um dos 100 brasileiros mais influentes pela revista Época.

Livros

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